Sociedade Botânica do Brasil - SBB
Notícias
10/04/2012
Homenagem da SBB ao centenário da Dra. Graziela Maciel Barroso


GRAZIELA MACIEL BARROSO: UMA TRAJETÓRIA NA CIÊNCIA BOTÂNICA DO SÉCULO XX

Entre os renomados botânicos que contribuíram para o desenvolvimento da Ciência Botânica no Brasil durante o século XX, figura Graziela Maciel Barroso.

Graziela nasceu em Corumbá, em 11 de abril de 1912, em uma família bastante numerosa. Segundo suas narrativas, a casa onde morava ficava à beira do rio Cuiabá: “Era um luar branco como nunca vi, um luar de prata. Jamais vou me esquecer daquelas noites, do gemido dos carros e da violinha do violeiro”.

Sua vida como mulher e mãe começou bastante cedo, quando aos 16 anos se casou com o Agrônomo Liberato Joaquim Barroso, teve o primeiro filho aos 18, a filha aos 19 e aos 37 anos ficou viúva. Antes de iniciar sua vida profissional, Graziela morou em diversas cidades do Brasil, acompanhando seu marido. A sua vida de pesquisadora foi compartilhada com a da mulher, dona de casa e mãe. Chegou à ciência Botânica, conduzida pelo seu marido, com o qual adquiriu práticas e saberes sendo incentivada a ingressar, aos 30 anos, como estagiária herborizadora no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e, a partir de então, teve início a relação de Graziela com a Botânica.

Em 1945, antes mesmo de obter o título de bacharel em 1961 pela Universidade do Estado da Guanabara, prestou concurso para o cargo de naturalista do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Foi a primeira mulher a concorrer a este cargo, no qual foi aprovada em segundo lugar. Segundo relatava, houve na época uma certa prevenção por parte dos candidatos homens, que eram cinco e ela, a única mulher. A partir de então, seus laços com a Botânica, especialmente a Sistemática Vegetal foram fortemente estreitados. Em 1950, Graziela ingressou como sócio efetivo na Sociedade Botânica do Brasil.  Em 1973 obteve o título de Doutor pela Universidade Estadual de Campinas.

Na ciência Botânica dedicou-se às áreas de Taxonomia e Morfologia, sendo suas ações pontuadas por intenso e profícuo trabalho de identificação de espécimes em coleções de herbários do Brasil e do exterior, por expedições científicas em diferentes biomas, por inúmeros trabalhos publicados e pela lida intensa e contínua na formação de recursos humanos. Foram dezenas de cursos ministrados sobre a Taxonomia e a Morfologia de plantas, centenas de palestras proferidas bem como dissertações e teses orientadas em diferentes programas de Pós-graduação do país. Como taxonomista integrou-se a grupos de pesquisa de diferentes áreas de conhecimento, compartilhando metodologias. Dedicou-se ao estudo de grupos complexos da flora do Brasil, como Asteraceae, Araceae, Leguminosae, Myrtaceae, Dioscoriaceae, entre outros, nos quais a identificação taxonômica era impedimento para que diferentes campos da ciência pudessem avançar. Descreveu várias espécies novas para a ciência. O seu conhecimento sobre a diversidade e a morfologia das plantas brasileiras possibilitou que assumisse a liderança científica de duas obras que preencheram uma grande lacuna no estudo das plantas: “Sistemática de Angiospermas do Brasil”, livro publicado em três volumes, e “Frutos e sementes. Morfologia aplicada à Sistemática de Dicotiledôneas”, publicado em um único volume. Entre as vozes pioneiras de causas conservacionistas, a sua repercutiu em defesa do estabelecimento de unidades de conservação nos cerrados, pantanal e mata atlântica. Contra a derrubada indiscriminada de áreas florestadas. Na Universidade de Brasília, onde integrou o grupo de professores que fundou departamentos e institutos, exercendo o magistério por cerca de três anos, destacou-se na defesa dos direitos democráticos, aliando-se às lutas políticas de alunos e professores e foi homenageada com o título de “Mãe do Ano”.

Além das atividades de pesquisa, docência e orientação, exerceu cargos de chefia e curadoria de coleções no JBRJ, onde incrementou o intercâmbio científico com outras instituições nacionais e estrangeiras. Foi pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) durante 43 anos. Graziela foi aposentada compulsoriamente, mas continuou a trabalhar no JBRJ, ou até mesmo em casa, até os seus 91 anos, quando veio a falecer.

Graziela recebeu várias homenagens em nomes de plantas que a ela foram dedicados, em títulos de paraninfa ou patronesse de várias turmas de formandos de cursos de graduação e em condecorações de órgãos municipais, estaduais e do governo brasileiro. Ao final do século XX recebeu a medalha "Millenium Botany Award”, conferida no Congresso Internacional de Botânica, realizado em St.Louis, (USA). A “Primeira Dama da Botânica”, título que lhe foi conferido pelo Dr. Tarciso Filgueiras, foi a Mestra de muitos professores e pesquisadores que hoje são formadores de novos botânicos e prosseguem impulsionando a Botânica brasileira.

A tia Grazi, a D. Grazi, a D. GMB, como era chamada por muitos de seus alunos, teve sua trajetória marcada por seu “fogo sagrado” em busca do conhecimento da flora brasileira que, juntamente com suas obras e exemplo de vida se integraram a história da botânica brasileira. 

 

Marli Pires Morim
Ariane Luna Peixoto
Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Arte final:
Carlos Wallace do Nascimento Moura
Universidade Estadual de Feira de Santana


Homenagem da Sociedade Botânica do Brasilao centenário de nascimento da Dra. Graziela M.Barroso
Diretoria SBB - Gestão 2010-2013.

 

 

 

 

 

EVENTOS
REVISTA ACTA